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Arquivo mensal: novembro 2011

Acho que este vídeo sintetiza bem dois lados opostos na questão de Belo Monte. E acho que ele simboliza bem a postura geral, tanto daqueles contrários à construção da usina como daqueles que que são a favor.

Achei curioso como depois do vídeo do Movimento Gota D’água surgiram manifestações a favor da construção da usina, imagino eu numa postura completamente reativa. Mas o mais importante, surgiram manifestações favoráveis, pautadas em argumentos que, concordando ou não, tem coerência.

Não gosto da idéia de que atores tenham uma palavra mais poderosa do que pessoas que realmente estudaram a questão. Mas é inegável que a presença dos artistas se declarando contra a usina mobilizou bastante gente, contra e favor da usina. Coisa que não acontecia quando as manifestações contrárias à usina se limitavam a links para petições e foto de “facepalm” de um cacique. Esse despertar só pode ser positivo.

Somente encarando os argumentos opostos àquilo que pensamos é que podemos realmente termos certeza do que acreditamos. Por isso, eu saúdo a participação de pessoas com bastante influência na sociedade, apesar de o vídeo em si ser bastante questionável.

Nunca antes na história deste GP tivemos uma corrida tão sem expectativa. Chavões à parte, é inegável que o GP do Brasil deste ano, que acontece neste final de semana, é um dos menos aguardados na história.

A seguir um apanhado desde 1991 das expectativas em torno dos GPs do Brasil. Por que 1991? Pois foi quando o GP do Brasil voltou a Interlagos e passou a ser realizado no traçado que conhecemos hoje.

De 1991 até 1994 havia algo óbvio que fazia o GP do Brasil ter apelo, pelo menos a nível local: a presença de Ayrton Senna, que ainda conseguiu duas vitórias memóraveis – 1991 e 1993.

Entre 1995 e 1999, por um lado era o período negro pro automobilismo brasileiro onde pensar em vitória já era muito. Por outro, como a corrida acontecia no início do campeonato, isto dava um valor para ela dentro do contexto com as demais corridas.

A partir de 2000, com a chegada de Rubens Barrichello à Ferrari, voltava a expectativa de ver um piloto brasileiro vencer. Essa expectativa demorou a ser satisfeita, somente com Felipe Massa em 2006. E neste tempo, houve outra mudança considerável – a partir de 2005 a prova passou a ser realizada na segunda metade da temporada.

Tal mudança acabou fazendo com que Interlagos recebesse a honraria de se tornar um palco de decisões, como Suzuka ganhou a fama anteriormente. Uma sequência de títulos foram vistos no GP do Brasil: O antecipado título de Alonso em 2005, o já praticamente certo título de 2006 do mesmo Alonso, a zebra incrível de Räikkonen em 2007 e a decisão mais empolgante de campeonato que a Fórmula 1 já viu em 2008 (o vídeo do começo do post) quando Massa perdeu seu título para Hamilton na última curva. E ainda houve o título de 2009, ganho por Button, com Barrichello na disputa.

Em 2010, não houve título conquistado em Interlagos, mas a corrida foi um passo decisivo na disputa tríplice entre Alonso, Webber e Vettel. Mas em 2011 não há campeonato a ser disputado. Vettel se sagrou campeão com folga.

Não bastasse a falta de tempero de uma disputa de campeonato, os brasileiros talvez estejam na pior fase desde 2000. O máximo que pode se esperar é uma tentativa de Felipe Massa apagar a má impressão de uma péssima temporada. Fora isso resta um Bruno Senna ainda cru numa limitada Renault, buscando um espaço para 2012 e Barrichello fazendo o possível e o impossível para que este não seja o seu último Grande Prêmio de Fórmula 1 em um carro que não inspira animação alguma.

O que sobra é o clima de fim de festa, uma homenagem aos 30 anos do primeiro título de Nelson Piquet e uma corrida na medida para quem gosta do esporte. Vale a pena para quem quer ver sem o ofuscamento que esse ou aquele fato especial no contexto causam. E claro, vale lembrar, Interlagos sobrevive firme e forte num calendário cada vez mais tomados por pistas com estruturas faraônicas e grandes áreas de escape. Interlagos é uma pista que representa um desafio diferente da tendência do calendário. Ainda tem alguma coisa pra ver.

Perry Farrel e seu festival

Perry Farrel: muita dor de cabeça com o Lollapalooza Brasil

 
Faltam mais de 5 meses para a primeira edição do Lollapalooza Brasil e o festival já está dando muito o que falar. Até por isso mesmo, resolvi esperar um pouco para analisar o que está acontecendo. Muita informação nova que surge a cada momento e é bom processar com calma antes de julgar tudo e disparar a metralhadora.
 
Tentarei ser o mais abrangente possível aqui.
 
A POLÊMICA
 
Às vésperas do anúncio oficial com o line up do festival o sempre polêmico Lobão divulga um vídeo no qual fala sobre o convite que recebeu do festival e sua recusa. A alegação era de que ele julgava merecer uma posição melhor e há um desrespeito geral com as bandas brasileiras em festivais, sempre postas em horários nada atrativos para tocar e ainda conclamou um boicote aos colegas convidados a tocar no festival para que conseguissem mais prestígio.
 
Essa bandeira não é exclusiva do Lobão. Só fazendo um apanhado de outros episódios recentes já se tem bastante material: João Gordo não perdoou a organização do Rock in Rio por causa disso; o Nação Zumbi mordeu a organização do Planeta Terra (mas depois assoprou); o barraco do Ultraje a Rigor com os roadies do Peter Gabriel (vale lembrar que pediram para que o show do Ultraje fosse cortado pela metade para compensar os atrasos na programação).
 
Por outro lado, eu duvido que a grande parte do público que vai ao Lollapalooza faça questão de ver Lobão. Eu não faria. O próprio Perry Farrell citou o caso do Billy Idol na última edição do festival em Chicago tocando às 16 horas. De qualquer forma, a minha impressão é a de que um festival tem mais a ganhar colocando atrações de mais apelo mescladas com outras ainda menos conhecidas. Faz o público se abrir pra ver novas bandas (e essa é a graça de um festival) e ainda atrai o público para chegar mais cedo e consumir mais dentro da área do festival. Vale lembrar que na mesma edição americana de 2011, tivemos o Arctic Monkeys tocando antes do Explosions in the Sky no mesmo palco.
 
O fato é que a organização anunciou que vai haver uma mescla de nomes nacionais com nomes internacionais, com direito ao headliner Foo Fighters ser imediatamente antecedido pelo show d’O Rappa. Nunca vamos saber se a chiadeira do Lobão funcionou mesmo, ou se isso foi só o delírio de um artista egocêntrico que não sabe onde se posiciona de verdade na visão do público.
 
O LINE UP
 
Posso resumir com a clássica “haters gonna hate”. Achei interessante. Muita gente chiando com as reclamações de pouco espaço para o rock no Rock in Rio, essa é a hora de ficar quieto. O Lollapalooza é um festival de rock, com margem para coisas interessantes fora deste universo, e na qualidade de um festival de rock com uma pegada mais antenada, acho que os nomes trazidos são muito interessantes.
 
Vivemos num país com 200 milhões de técnicos de futebol, 200 milhões de especialistas em energia elétrica, 200 milhões de curadores de shows. Eu até acho isso normal: na qualidade de potenciais consumidores do Lollapalooza, nada mais legítimo que criticar ou elogiar. Mas na minha opinião, a chance de termos nomes interessantes, mas sem o apelo dos headliners, como o caso de TV On The Radio, MGMT é algo muito positivo. Além das novidades ainda frescas como Skrillex e Foster The People.
 
Só fico com a pulga atrás da orelha com os nacionais. Alguns nomes das antigas, que eu imagino tenha bem mais apelo a quem é mais velho (e precisaria pagar 300 reais por dia ou 500 num Lollapass para ir) e que aparentemente não compensaria tirar o escorpião do boslo para vê-los, além de alguns nomes que causam aquele instantâneo “WTF?”. Em compensação, fiquei muito feliz em ver um expoente da nova (e boa) safra de bandas cariocas que é a Tipo Uísque tendo a oportunidade de fazer parte do evento.
 
O PREÇO E A VENDA
 
Resumindo, não achei nem extorsivo nem uma pechincha atraente, mas talvez pudesse ser melhor. A comparação entre os 500 reais para o passe de dois dias e os preços do Chile é de uma covardia sem tamanho. Aliás, serviu para expor algo que muita gente já comenta: a famigerada questão da meia-entrada. As estimativas dão conta que de 75% a 80% dos ingressos vendidos tem valor pela metade. Portanto os tais 500 reais não refletem a realidade.
 
A realidade é pré-venda de um passe de 2 dias no qual cada dia custa 125 reais em valor promocional. Uma economia de 50 reais no total. Não me pareceu promocional mas nem tanto. E comparando com o Chile, a diferença é de quase 50 reais no mesmo passe de dois dias, com o agravante de que a edição chilena é mais recheada de atrações, na sua maioria locais. Aí entra também o tal “custo-Brasil” (ECAD, custos de operação, locação da área, etc.). A propósito, outra coisa que deve merece uma discussão mais séria: o que faz esse custo de shows ser maior no Brasil e até que ponto isso se reverte em benefício para artistas e público?
 
Retomando, imaginando um preço promocional de R$ 125,00, e um preço normal de R$ 150,00, e supondo um lineup de um dia, enquanto ainda não sai em definitivo. Que tal… Foo Fighters, O Rappa, MGMT, TV On The Radio, Joann Jett, Band of Horses, Foster The People, Gogol Bordello, Friendly Fires, Crystal Method, Tinnie Tempah, Peaches, Plebe Rude, Wander Wildner, Tipo Uísque, Velhas Virgens, Garage Fuzz? É… ok.
 
Bom lembrar que este é um festival privado. Meu incômodo com os preços é questão de um ponto de vista pessoal. Qualquer coisa além disso não me parece muito cabível em reclamações aqui. Não estamos falando de um Back2Black que conta com financiamento público e cobra preços como se não houve esse tipo de apoio.
 
E finalizando com relação ao preço, aquilo que, pelo menos pra mim, afasta pra valer. É a incoveniência das taxas com as quais nos deparamos depara na hora de fazer a compra. Os poucos infelizes que compraram um passe a preço inteiro (para não dizer dobrado) precisaram pagar uma indecente taxa de 100 reais pelo serviço de venda pela internet. “Módicos” 50 reais para a conveniência da meia entrada (se o serviço é o mesmo, porque diabos cobrar em porcentagem?) além de mais 34 reais de taxa de entrega, que imagino que seja contronável. Só de taxas já temos praticamente um novo ingresso, ou mais de um ingresso para shows individuais por aí. Isso não é legal. Aliás, pega mal cobrar a taxa por fora numa pré-venda onde o serviço é exclusivo na internet, ou seja, sem alternativa para driblar a taxa de conveniência.
 
E ainda tivemos a pré-venda, que durou algo em torno de 24 horas. Bem problemática. Congestão por conta de um tráfego inesperado (quero entender como de 60.000 senhas dadas fomos para 2 milhões de acessos, enfim…), site que redirecionava para venda de ingresso pra jogo do Figueirense, vazamento de dados de compradores. Deu bastante errado. Prenúncio de muita preparação e tensão, tanto para os responsáveis pelas vendas como para os fãs.
 
Vale lembrar que antes do início da pré-venda o link pra venda de ingressos vazou. O que deu origem ao boato de que não haveria meia-entrada na pré-venda, queimando o filme do próprio festival e sendo mais um indício de que há algo a ser melhorado no sistema de vendas.
 
O CARA
 
 

Imagino não ter sido o único a se incomodar com algumas coisas faladas pelo Perry Farrell. Mas é um pouco o espírito do comercial das Havaianas também. Farrell devia ter se preparado melhor antes de vir pro Brasil, só que parece que se ateve aos esteriótipos: “vocês não gostam de serem chamados de América Latina” foi de uma infelicidade impar para alguém que se pretende como embaixador de um evento. Não questiono o fato de estarmos num país mini-imperialista, mas se eu fosse divulgar algo nos Estados Unidos eu teria todo o cuidado para não falar de um povo que parece não saber nada sobre o resto do mundo. Tão assessorando muito mal o cara.

Mas aquilo que mais incomodou a mim em particular foi afirmar que o Brasil está se acostumando a shows internacionais. De fato estamos em um momento especial nesse sentido como não se via, mas ler isso me passou a impressão daquele americano esteriotipado (olha a reciprocidade) acreditando na idéia do destino manifesto e que ele como yankee tem a missão de levar as noções de civilização para os bárbaros mundão afora. E por mais importante que o Lollapalooza seja no sentido de trazer nomes interessantes para tocar no Brasil, ele não é nenhum divisor de águas e sabemos bem disso.

Muita falação e ainda muito tempo para os shows. Isto é o Lollapalooza Brasil até aqui.

 
 
 
 
 
 
 
 
 

Feridão de moleza para alguns, mas pra mim vai ser de ralação em evento acadêmico da faculdade. Pra não deixar isso aqui completamente parado, uma seleção de vídeos do Eu Quero Festival.

Agradecimento a todos que visitaram o blog esses dias e a quem teve a gratidão de registrar o que foram esses dias!

Vídeo oficial do festival:

Holger – Tetra

Beady Eye e o público acalorado!

Dancinha intimista com o Toro y Moi.

Single novo delicinha do Bombay Bicycle Club

Broken Social Scene esquentando com Texico Bitches

Momento mais light com Hotel

Ainda na calmaria, video lindão com esse filtro p/b e Lisa Lobsing caprichando em Anthem For a 17 Years Old Girl

Esse vídeo aqui define bem a catarse que foi o último show dos canadenses. Vou te ajudar a acompanhar: “Um, dois, três, quatro”, Ibi Dreams of Pavement e os versos de Killing in the Name Of (sim, a do Rage Against The Machine), e o Chaz do Toro y Moi tocando junto. Inusitado demais!

Como fazer de um festival um festival? Em outras palavras, como fazer do “Eu Quero Festival” algo diferenciado como evento? O Circo Voador é uma casa habituada a shows de toda sorte, mas o pessoal do Queremos caprichou muito na caracterização para trazer a diferenciação e agregar valor ao evento.

Projeções das fotos que os fotógrafos do I Hate Flash tiraram em vários festivais do mundo (embora as fotos merecessem mais destaque e uma exibição delas em tamanho normal com a devida resolução pudesse ser mais válida), uma kombi hippie do patrocinador, rapazes com tabuleiros repletos de chicletes além dos tradicionais posters davam o clima de festival que todo hipster/indie/alternativo/descolado/antenado/etc sonha em ver no hemisfério norte. Aliás, na kombi além de roupas da Farm, havia coisas muito legais à venda – LP do She & Him, CDs do naipe Thurston Moore, Girls, e um que eu tive que levar: Warpaint.

Sem shows simultâneos, vou acabar dedicando mais linhas às apresentações do festival de bolso carioca em comparação ao Planeta Terra.

07/11/2011 – Beady Eye se rende e público faz a festa

O Driving Music abriu o festival. Infelizmente eu não pude vê-los, afinal tenho uma vida de estágio e faculdade antes de ser blogueiro (felizmente) e nem sempre os horários ajudam, mas soube que foi uma boa apresentação.

Não é segredo que os fãs de Oasis/Liam/Beady Eye/etc são uma raça muito desagradável e incoveninente em certas horas. Sobrou pro Holger a missão de encarar os leões antes do show do Beady Eye. Os paulistas já tem um álbum e um EP lançado e caminham para o segundo álbum. Já são uma banda consolidada no cenário alternativo brasileiro, o que significa alguma coisa para alguns e nada para muita gente, como entre boa parte dos que estavam lá.

A mistura de Foals com Vampire Weekend funcionou bem, de forma surpreendente para a turma do rock’n roll. O público menos antenado foi sendo ganho aos poucos. Gritos de Beady Eye e Liam eram facilmente escutados. Mas com o passar do tempo o público foi interagindo mais com a banda. Mesmo estática durante a maior parte dos 40 minutos de show, a platéia não economizou nos aplausos. A apresentação marcada por muitas trocas de instrumentos entre os membros, lembrando muito o que seria visto no dia seguinte com o Broken Social Scene, teve suas derrapadas mas se mostrou a altura da responsabilidade assumida.

O jogo ganho pros Strokes no Planeta Terra foi exatamente o que o Beady Eye teve da trupe azul-calcinha de fãs que os aguardava no Rio. Não é de surpreender. É complicado falar de Liam Gallagher, que é o símbolo maior da banda que eu mais escutei na saída da infância pra adolescência. E mesmo vendo o show com algum distanciamento, existe uma emoção em ver aquela espécie de anti-herói ali tão perto.

É impressionante ver o poder de um homem com sua voz fanha e a mesma pose estática e escoliótica. Talvez por representar aquilo que muita gente adoraria ser, Liam Gallagher tem uma adoração digna de um Maradona, ou numa comparação mais apropriada, é uma espécie de Paul Dickov dos palcos.

Existe um descompasso no Beady Eye – a banda tem muito nome, afinal é o Oasis exceto Noel, mas as músicas não emplacaram muito, ainda. Nenhuma música tem a repercussão de uma “Live Forever” ou “Supersonic”, fazendo uma comparação justa ao debut do Oasis. Lembro do show de 2009 do Oasis no Rio, com a clara sensação de que foi bom, mas era feito mesmo para os fãs ardorosos da banda. Mesma impressão aqui, com o agravante de as faixas terem menos grife.

Mas para os fãs isso não fazia muita diferença. O show bem executado se encontrou no Circo Voador e os membros da banda não resistiram e dava para ver o sorriso estampado. Gem Archer já disse que foi o show mais memorável da turnê. O único porém: a própria mixagem privilegiava a voz de Liam, acredito que intencionalmente, e parecia haver algo de errado no microfone. Mas Liam se manteve ali, talvez em gratidão pelo calor do público. E a banda se mostrou muito profissional, com o problemático microfone sendo testado até no intervalo para o bis.

Público botando fogo no show, gente que nunca se viu na vida se abraçando e cantando junto. Parecia arquibancada em dia de clássico na hora do gol da vitória. O sisudo Liam fechou a apresentação falando antes de cantar a última música “Nos vemos no ano que vem. Tomara.” Resume bem o clima de felicidade geral na primeira noite do festival.

08/11/2011 – A histórica maratona do Broken Social Scene e muito mais!

Imagino que esse texto termine tão longo quanto o show do Broken Social Scene, mas eles não foram os únicos a fazer bonito numa noite incrível de shows.

A noite já dava um alô quando a agradável Baleia se apresentava no palco menor. Um jazz pitado num folk muito simpático e ainda surpreenderam com covers de Justin Timberlake, Britney Spears e Radiohead, mantendo a levada própria deles. Se levam a sério apesar ainda estarem começando. Vale uma conferida.

O público ia chegando aos poucos e houve um atraso geral de vinte minutos na programação. Mas não me surpreende. Pontualidade e Rio de Janeiro não combinam. Não por desorganização da produção neste caso, mas pelo próprio público que não gosta de chegar cedo mesmo. Diferente da noite de Segunda-Feira, um público mais variado, refletindo o lineup da noite e as figuras da cena carioca deram as caras em maior quantidade numa noite que ficou ligeiramente menos cheia que a anterior.

Toro y Moi chegou lá para depois das 20:00 e de cara mandou o hit “New Beat” e a voz um pouco menos relax do que na versão de estúdio. Se em São Paulo a apresentação não pegou por uma série de problemas, no Rio a história foi bem diferente. Som redondinho, saindo do chillwave para algumas passagens flertando com o experimental, e uma cozinha espetacular que fez as músicas crescerem ao vivo. Para a surpresa minha e de alguns amigos, ainda entrou no setlist o mais recente single do projeto de Chaz Bundick, o cover de Saturday Love da Cherelle (vale a conferida no original para saber a fonte em que o Toro y Moi bebe). Foi o show de reação mais morna da noite, sem surpresa alguma, por conta do público menos afeito a tietagens que o aprecia e que não deixou de dançar com joelhos e ombros boa parte do show. E teve o mérito de fazer a turma menos ligada na tendência do chillwave apreciar a apresentação.

Em seguida o Bombay Bicycle Club deixou a frente da platéia bem jovem. Um ano depois de tocar ali do lado no Teatro Odisséia, os londrinos animaram muito a molecada que tava ali realmente para vê-los. O som deles parece um caldeirão de tudo que é indie rock junto e misturado. Comentava com um amigo a cada música com o que parecia. Alguma coisa delicada digna de indie fofinho que eu tenho preguiça de lembrar o nome, de repente uns riffs poderosos de Foo Fighters, ou viscerais como o The National na fase de Sad Songs For Dirty Lovers, aí a coisa ia para um Interpol misturado com Snow Patrol ou então um baixo demolidor daqueles bem Muse e logo depois um Two Door Cinema Club. Não diferenciou em quase nada da boa apresentação de São Paulo, carregada de energia e sem problemas. Até o single mais recente foi bem recebidos pelos fãs que tiveram o que queriam.

Não me considero fã de Broken Social Scene, mas é uma banda pela qual tenho o mais absoluto respeito. E a idéia de ver um show de uma big band canadense incomum parecia um sonho. O show do Eu Quero Festival sendo, por acaso, o último antes do hiato fazia o show ganhar ainda mais valor. E quando eu senti que “hiato” era um eufemismo, a expectativa aumentou ainda mais. E diante do que se seguiu, fica difícil falar de forma muito racional.

Às 23:20 começou o show, ou talvez possa definí-lo como um monstro, como uma entidade ou o que for. Ele ganha ares maiores pela duração e pelo próprio peso do tamanho da banda, que em alguns momentos colocava 8 pessoas ocupando o palco do Circo Voador.

As músicas que eu melhor conheço e curto vieram cedo, para a minha sorte de poder curtí-las pra valer. Lá foram “7/4 Shoreline” e “Fire Eye’d Boy” e depois vi o show mais relaxado. E em Fire Eye’d Boy, aquilo que não deu certo – balões desceram rumo ao público que, na curtição, acabou levando boa parte deles direto para o palco. Uma pausa inesperada para estourarem os balões e o show seguiu.

Uma série de riffs poderosos de todo o tipo e jams enormes fazendo o público surtar se intercalando com momentos mais calmos. “Anthems For A 17 Years Old Girl” foi um dos pontos altos. Lisa Lobsing, especialmente nesse momento, compensou bem a frustração pela ausência de Emily Haines. E no meio disso covers de Modest Mouse, Beastie Boys, U2 e Rage Against the Machine. Público mais empolgado e entregue que o normal para um show indie, e o resultado foi uma inimaginável roda punk na pista. Me rendeu um dedo machucado, como saldo, mas é algo que contarei para os netos: eu fui numa roda punk num show indie!

Quem também via o show era o Chaz, sim o “Toro y Moi”, nos bastidores, junto do pessoal de apoio da banda e de Lisa Lobsing quando ela não participava do show. E sobrou para ele também! Um dos sintetizadores da banda teve problemas, e Chaz emprestou o dele. E foi além: o próprio Chaz empunhou uma guitarra e tocou junto com o Broken fazendo do show ainda mais singular.

Nota posterior: Não foi só o Chaz que prestigiou o show do Broken. O pessoal do Bombay foi pra galera ver junto o show dos canadenses bem no meio daqueles que entoavam as músicas!

Uma semana antes do show, vi comentarem sobre o fato deste show ser completo “Vai acabar as 2 da manhã”. Achei que era brincadeira, mas acabou que chegou perto disso. Depois de 2 horas e meia de apresentação, que passaram bem rápido, os muitos que ficaram para ver o show todo saíram do Circo Voador de alma lavada faltando 10 minutos para as 2 da manhã. E eu com mais uma camisa de banda. Lembrança justíssima de uma noite que levarei para sempre na memória.

Depois disso tudo, o recado de que o Rio tem público para shows internacionais de apelo não tão óbvio tá mais que reforçado. Ver o Circo Voador cheio em noites de Segunda e Terça-feira, esta terminando já de madrugada, mostram o interesse do público que andou por muito tempo adormecido e longe de ser aguçado. E o próprio acontecimento do festival por si só tem seu valor inerente. Sucesso de organização, sucesso de público – todos os 400 cotistas receberão de volta todo o investimento feito – e grandes shows deixaram o gosto de “Eu quero mais festivais”.

 

 

 

 

 

 

 

 

Já passou da meia noite, então essa já é a boa de hoje.

A segunda noite do Eu Quero Festival rola nessa Terça-feira. A primeira noite com o Beady Eye foi um sucesso. Depois falarei mais sobre. Mas adianto que a caracterização do Circo tá incrível e isso já vale a visita.

Além disso, teremos o pop-folk do Baleia abrindo a noite, depois o chillwave descolado do Toro y Moi, o indie cativante do Bombay Bicycle Club. Fechando a noite uma apresentação que tem tudo para ser antológica. Broken Social Scene fazendo a última apresentação antes do hiato já anunciado, quiçá o último show da banda. E no caldeirão do Circo Voador a combinação tem tudo para dar aquela liga!

Não percam!