Como Foi – Eu Quero Festival

Como fazer de um festival um festival? Em outras palavras, como fazer do “Eu Quero Festival” algo diferenciado como evento? O Circo Voador é uma casa habituada a shows de toda sorte, mas o pessoal do Queremos caprichou muito na caracterização para trazer a diferenciação e agregar valor ao evento.

Projeções das fotos que os fotógrafos do I Hate Flash tiraram em vários festivais do mundo (embora as fotos merecessem mais destaque e uma exibição delas em tamanho normal com a devida resolução pudesse ser mais válida), uma kombi hippie do patrocinador, rapazes com tabuleiros repletos de chicletes além dos tradicionais posters davam o clima de festival que todo hipster/indie/alternativo/descolado/antenado/etc sonha em ver no hemisfério norte. Aliás, na kombi além de roupas da Farm, havia coisas muito legais à venda – LP do She & Him, CDs do naipe Thurston Moore, Girls, e um que eu tive que levar: Warpaint.

Sem shows simultâneos, vou acabar dedicando mais linhas às apresentações do festival de bolso carioca em comparação ao Planeta Terra.

07/11/2011 – Beady Eye se rende e público faz a festa

O Driving Music abriu o festival. Infelizmente eu não pude vê-los, afinal tenho uma vida de estágio e faculdade antes de ser blogueiro (felizmente) e nem sempre os horários ajudam, mas soube que foi uma boa apresentação.

Não é segredo que os fãs de Oasis/Liam/Beady Eye/etc são uma raça muito desagradável e incoveninente em certas horas. Sobrou pro Holger a missão de encarar os leões antes do show do Beady Eye. Os paulistas já tem um álbum e um EP lançado e caminham para o segundo álbum. Já são uma banda consolidada no cenário alternativo brasileiro, o que significa alguma coisa para alguns e nada para muita gente, como entre boa parte dos que estavam lá.

A mistura de Foals com Vampire Weekend funcionou bem, de forma surpreendente para a turma do rock’n roll. O público menos antenado foi sendo ganho aos poucos. Gritos de Beady Eye e Liam eram facilmente escutados. Mas com o passar do tempo o público foi interagindo mais com a banda. Mesmo estática durante a maior parte dos 40 minutos de show, a platéia não economizou nos aplausos. A apresentação marcada por muitas trocas de instrumentos entre os membros, lembrando muito o que seria visto no dia seguinte com o Broken Social Scene, teve suas derrapadas mas se mostrou a altura da responsabilidade assumida.

O jogo ganho pros Strokes no Planeta Terra foi exatamente o que o Beady Eye teve da trupe azul-calcinha de fãs que os aguardava no Rio. Não é de surpreender. É complicado falar de Liam Gallagher, que é o símbolo maior da banda que eu mais escutei na saída da infância pra adolescência. E mesmo vendo o show com algum distanciamento, existe uma emoção em ver aquela espécie de anti-herói ali tão perto.

É impressionante ver o poder de um homem com sua voz fanha e a mesma pose estática e escoliótica. Talvez por representar aquilo que muita gente adoraria ser, Liam Gallagher tem uma adoração digna de um Maradona, ou numa comparação mais apropriada, é uma espécie de Paul Dickov dos palcos.

Existe um descompasso no Beady Eye – a banda tem muito nome, afinal é o Oasis exceto Noel, mas as músicas não emplacaram muito, ainda. Nenhuma música tem a repercussão de uma “Live Forever” ou “Supersonic”, fazendo uma comparação justa ao debut do Oasis. Lembro do show de 2009 do Oasis no Rio, com a clara sensação de que foi bom, mas era feito mesmo para os fãs ardorosos da banda. Mesma impressão aqui, com o agravante de as faixas terem menos grife.

Mas para os fãs isso não fazia muita diferença. O show bem executado se encontrou no Circo Voador e os membros da banda não resistiram e dava para ver o sorriso estampado. Gem Archer já disse que foi o show mais memorável da turnê. O único porém: a própria mixagem privilegiava a voz de Liam, acredito que intencionalmente, e parecia haver algo de errado no microfone. Mas Liam se manteve ali, talvez em gratidão pelo calor do público. E a banda se mostrou muito profissional, com o problemático microfone sendo testado até no intervalo para o bis.

Público botando fogo no show, gente que nunca se viu na vida se abraçando e cantando junto. Parecia arquibancada em dia de clássico na hora do gol da vitória. O sisudo Liam fechou a apresentação falando antes de cantar a última música “Nos vemos no ano que vem. Tomara.” Resume bem o clima de felicidade geral na primeira noite do festival.

08/11/2011 – A histórica maratona do Broken Social Scene e muito mais!

Imagino que esse texto termine tão longo quanto o show do Broken Social Scene, mas eles não foram os únicos a fazer bonito numa noite incrível de shows.

A noite já dava um alô quando a agradável Baleia se apresentava no palco menor. Um jazz pitado num folk muito simpático e ainda surpreenderam com covers de Justin Timberlake, Britney Spears e Radiohead, mantendo a levada própria deles. Se levam a sério apesar ainda estarem começando. Vale uma conferida.

O público ia chegando aos poucos e houve um atraso geral de vinte minutos na programação. Mas não me surpreende. Pontualidade e Rio de Janeiro não combinam. Não por desorganização da produção neste caso, mas pelo próprio público que não gosta de chegar cedo mesmo. Diferente da noite de Segunda-Feira, um público mais variado, refletindo o lineup da noite e as figuras da cena carioca deram as caras em maior quantidade numa noite que ficou ligeiramente menos cheia que a anterior.

Toro y Moi chegou lá para depois das 20:00 e de cara mandou o hit “New Beat” e a voz um pouco menos relax do que na versão de estúdio. Se em São Paulo a apresentação não pegou por uma série de problemas, no Rio a história foi bem diferente. Som redondinho, saindo do chillwave para algumas passagens flertando com o experimental, e uma cozinha espetacular que fez as músicas crescerem ao vivo. Para a surpresa minha e de alguns amigos, ainda entrou no setlist o mais recente single do projeto de Chaz Bundick, o cover de Saturday Love da Cherelle (vale a conferida no original para saber a fonte em que o Toro y Moi bebe). Foi o show de reação mais morna da noite, sem surpresa alguma, por conta do público menos afeito a tietagens que o aprecia e que não deixou de dançar com joelhos e ombros boa parte do show. E teve o mérito de fazer a turma menos ligada na tendência do chillwave apreciar a apresentação.

Em seguida o Bombay Bicycle Club deixou a frente da platéia bem jovem. Um ano depois de tocar ali do lado no Teatro Odisséia, os londrinos animaram muito a molecada que tava ali realmente para vê-los. O som deles parece um caldeirão de tudo que é indie rock junto e misturado. Comentava com um amigo a cada música com o que parecia. Alguma coisa delicada digna de indie fofinho que eu tenho preguiça de lembrar o nome, de repente uns riffs poderosos de Foo Fighters, ou viscerais como o The National na fase de Sad Songs For Dirty Lovers, aí a coisa ia para um Interpol misturado com Snow Patrol ou então um baixo demolidor daqueles bem Muse e logo depois um Two Door Cinema Club. Não diferenciou em quase nada da boa apresentação de São Paulo, carregada de energia e sem problemas. Até o single mais recente foi bem recebidos pelos fãs que tiveram o que queriam.

Não me considero fã de Broken Social Scene, mas é uma banda pela qual tenho o mais absoluto respeito. E a idéia de ver um show de uma big band canadense incomum parecia um sonho. O show do Eu Quero Festival sendo, por acaso, o último antes do hiato fazia o show ganhar ainda mais valor. E quando eu senti que “hiato” era um eufemismo, a expectativa aumentou ainda mais. E diante do que se seguiu, fica difícil falar de forma muito racional.

Às 23:20 começou o show, ou talvez possa definí-lo como um monstro, como uma entidade ou o que for. Ele ganha ares maiores pela duração e pelo próprio peso do tamanho da banda, que em alguns momentos colocava 8 pessoas ocupando o palco do Circo Voador.

As músicas que eu melhor conheço e curto vieram cedo, para a minha sorte de poder curtí-las pra valer. Lá foram “7/4 Shoreline” e “Fire Eye’d Boy” e depois vi o show mais relaxado. E em Fire Eye’d Boy, aquilo que não deu certo – balões desceram rumo ao público que, na curtição, acabou levando boa parte deles direto para o palco. Uma pausa inesperada para estourarem os balões e o show seguiu.

Uma série de riffs poderosos de todo o tipo e jams enormes fazendo o público surtar se intercalando com momentos mais calmos. “Anthems For A 17 Years Old Girl” foi um dos pontos altos. Lisa Lobsing, especialmente nesse momento, compensou bem a frustração pela ausência de Emily Haines. E no meio disso covers de Modest Mouse, Beastie Boys, U2 e Rage Against the Machine. Público mais empolgado e entregue que o normal para um show indie, e o resultado foi uma inimaginável roda punk na pista. Me rendeu um dedo machucado, como saldo, mas é algo que contarei para os netos: eu fui numa roda punk num show indie!

Quem também via o show era o Chaz, sim o “Toro y Moi”, nos bastidores, junto do pessoal de apoio da banda e de Lisa Lobsing quando ela não participava do show. E sobrou para ele também! Um dos sintetizadores da banda teve problemas, e Chaz emprestou o dele. E foi além: o próprio Chaz empunhou uma guitarra e tocou junto com o Broken fazendo do show ainda mais singular.

Nota posterior: Não foi só o Chaz que prestigiou o show do Broken. O pessoal do Bombay foi pra galera ver junto o show dos canadenses bem no meio daqueles que entoavam as músicas!

Uma semana antes do show, vi comentarem sobre o fato deste show ser completo “Vai acabar as 2 da manhã”. Achei que era brincadeira, mas acabou que chegou perto disso. Depois de 2 horas e meia de apresentação, que passaram bem rápido, os muitos que ficaram para ver o show todo saíram do Circo Voador de alma lavada faltando 10 minutos para as 2 da manhã. E eu com mais uma camisa de banda. Lembrança justíssima de uma noite que levarei para sempre na memória.

Depois disso tudo, o recado de que o Rio tem público para shows internacionais de apelo não tão óbvio tá mais que reforçado. Ver o Circo Voador cheio em noites de Segunda e Terça-feira, esta terminando já de madrugada, mostram o interesse do público que andou por muito tempo adormecido e longe de ser aguçado. E o próprio acontecimento do festival por si só tem seu valor inerente. Sucesso de organização, sucesso de público – todos os 400 cotistas receberão de volta todo o investimento feito – e grandes shows deixaram o gosto de “Eu quero mais festivais”.

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